O dilema de Serra
Há algum tempo começou a se travar uma discussão sobre a viabilidade das duas virtuais candidaturas tucanas à Presidência da República. Analistas políticos dos mais variados naipes se manifestaram sobre qual a alternativa mais propensa a lograr êxito. Vantagens e desvantagens vieram à tona. Uma suposta desvantagem, neste caso referente à candidatura Serra, ganhou uma conotação especial, a saber: o fato de o prefeito paulistano, no pleito de 2004, ter assinado e registrado em cartório o compromisso, caso eleito, de não renunciar ao mandato.
A possibilidade de renúncia de Serra ao mandato de prefeito para concorrer à Presidência da República tem sido apontada por muitos como uma verdadeira agressão moral, uma traição aos seus eleitores ou ainda, uma “promessa não cumprida”, que pode, inclusive, se tornar um mote eficaz da campanha do PT contra o seu principal adversário. Isso, segundo alguns analistas, inviabilizaria a candidatura Serra em 2006.
Proponho uma visão diferente da exposta. Advogo que o impacto negativo que se tem prenunciado sobre uma eventual candidatura Serra é demasiado. Primeiro, as pesquisas demonstram que a possibilidade da renúncia de Serra não está interferindo na opinião das pessoas, tanto é que o tucano tem aparecido bem nas sondagens, inclusive sendo o único a superar Lula. Sei que em campanha o PT poderá explorar intensamente, e terá tempo disponível para isso, a idéia de que Serra não cumpriu sua promessa, mas Serra, por sua vez, pode questionar a autoridade moral do PT e relembrar sua infinidade de promessas não cumpridas. A época do monopólio ético do PT ficou para trás, de modo que soará estranho o partido questionar a postura ética dos outros, uma vez que a sua foi posta em xeque.
Segundo, o tal papel assinado por Serra não passou de uma peça publicitária armada pelo PT. Serra não tinha alternativa que não assinar. Dessa forma, não se sustenta o argumento de que ele estaria rompendo um compromisso, tendo em vista que foi compelido a fazê-lo. Ninguém pode ser cobrado por algo que fez em decorrência de um constrangimento público. As circunstâncias tornam o aludido artifício dotado de uma ética oblíqua e uma moral imprestável, uma vez que diante da ausência de liberdade a verdade fica literalmente comprometida.
Terceiro, a candidatura Serra não foi anunciada por ele, mas pela população. É o eleitorado, apresentado por muitos como repelente à idéia de renúncia, que tem legitimado o nome do prefeito paulistano como principal concorrente de Lula. Alguns poderiam advogar ainda que isso ocorra porque Serra concorreu aos dois turnos da eleição presidencial pretérita, logo seu nome tem mais visibilidade. O recall, indiscutivelmente, existe, mas se a mera exposição ganhasse eleição, Lula seria imbatível.
Dessa forma, caso o PSDB se decida por Serra o dilema da renúncia não terá papel fundamental na campanha, mas apenas ornamental, até porque o suposto maior beneficiário é infrator. Lamento, pois, informar aos que depõem contra a viabilidade da candidatura Serra, que uma vez homologada ela não ganhará, em decorrência do episódio em tela, a proporção negativa que muitos analistas profetizam. Não consigo, a exemplo dos profetas, visualizar o futuro, mas costumo, ao menos, enxergar o próprio nariz.
